Nova função no Palmeiras, Libertadores e lição de Itaquera: falamos com Guerra

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Melhor da competição em 2016, venezuelano se diz frustrado por eliminação neste ano

Dá para contar nos dedos de uma mão o número de vezes que Alejandro Guerra, melhor jogador da Libertadores de 2016, conversou com jornalistas desde que chegou ao Palmeiras, nesta temporada. Não por não gostar da imprensa, mas porque ao longo de seus 32 anos ele nunca foi acuado por tantos “micrófonos” como acontece no Brasil.

Na última segunda-feira, diante de um único celular – dois, na verdade, para garantir que a gravação da entrevista não se perdesse –, o venezuelano topou conversar sobre futebol com o GloboEsporte.com. E o começo do papo foi a respeito de seu novo posicionamento.

Com o retorno de Moisés ao time, o técnico Cuca armou o Palmeiras com quatro meio-campistas na vitória sobre o São Paulo, na rodada passada do Campeonato Brasileiro. À Guerra, coube se posicionar um pouco mais à direita do ataque, com alguma liberdade para flutuar e significativa obrigação de dificultar a saída de bola adversária.

– Eu disse outro dia que prefiro me mover por todo o campo, porque aí tenho mais participação de jogo. Mas também disse que hoje em dia tem que se jogar onde o utilizam, onde o técnico necessita. Se tem essa possibilidade, eu vou fazer. Em quase toda a minha vida, eu joguei ali, como extrema direito, e conheço um pouco essa posição – disse, ao se lembrar principalmente do período no futebol venezuelano, antes de chegar ao Atlético Nacional, da Colômbia, em 2014.

– O esquema que quase todos os times na Venezuela usam é o 4-4-2. Então, eu jogava pela direita em quase todas as equipes. Depois, no Nacional, joguei em cinco posições. Joguei no Mundial de 9 e fiz gol contra o América do México, fui bem. Jogo onde precisarem de mim e, se estão me colocando, é porque pensam e sabem que posso exercer essa função. Ali (na ponta direita) se corre mais, porque aqui os laterais passam muito ao ataque, e você tem de estar mais pendente disso.

Globoesporte.com: Por falar na Venezuela, por que se aposentou da seleção?

Guerra: – Foi difícil. Quem não gosta de representar seu país? Em qualquer disciplina, futebol, beisebol. Vinha pensando havia muito tempo, mas não tinha falado com minha família. Depois que falei, me disseram que não (deveria), mas penso que, em primeiro lugar, a Venezuela não tem hoje em dia chance de ir ao Mundial. Faltavam quatro partidas naquele momento. Penso e disse ao treinador que não agrego mais, porque há jogadores mais jovens, que fizeram um grande Mundial sub-20 [perdeu a final para a Inglaterra], e isso me empurrou a tomar essa decisão. Porque, isso à parte, eu também sentia que a qualquer momento seria deixado de lado. Então, antes que isso acontecesse, eu preferi tomar a iniciativa.

Foi muito pela idade, então.

– Foi também pela idade. No próximo Mundial, eu teria 38 anos, 39 anos. Não chegaria. Penso que fiz o correto, até porque pensava em classificar para a próxima fase da Libertadores, fazer mais trabalhos aqui. Foram várias coisas. Minha decisão passou também pelo meu filho (Assael, que sofreu um acidente doméstico e ficou pouco mais de uma semana na UTI). As coisas aconteceram comigo quando eu estava viajando por muitos dias. Quando fico muito tempo fora de casa, já fico louco para voltar e estar com minha família, porque sou muito apegado à ela.

Parar de jogar pela Venezuela não significa parar de jogar.

Guerra acredita que ainda pode ser vencedor com a camisa 18 do Palmeiras, com a qual tem 32 partidas disputadas e sete gols marcados. Diz que vai se retirar dos gramados assim que o corpo pedir.

– Não tenho data. Quando sentir que não dá mais… Tampouco vou me aposentar do futebol passando vergonha. Quero me aposentar bem, deixando uma boa imagem, que é o mais importante.

Mas uma coisa é certa: após a carreira como jogador, adeus futebol.

– Tenho de agradecer muito ao futebol, mas penso que também toma muito tempo. Jogador vem, treina e volta para casa. Mas e o técnico? Estou vendo Cuca ali sentado [em uma longa conversa com o gerente de futebol Cícero Souza], tem de chegar primeiro. Preciso agradecer muito ao futebol, mas não penso em trabalhar com futebol. Penso em investir em propriedades, em outras coisas – afirmou.

Até lá, voltemos ao Palmeiras…

Contratado como grande nome da Libertadores passada, juntamente com Miguel Borja (seu companheiro no último semestre de Atlético Nacional), Guerra botava muita fé em ser mais uma vez campeão do torneio sul-americano. Em vez disso, o Palmeiras caiu nos pênaltis para o Barcelona de Guayaquil, em casa, nas oitavas de final.

– Foi muito frustrante. Eu dizia à minha esposa que me via outra vez levantando a taça. Eu me via, tinha essa ambição. Se ganhei no ano passado, por que não neste ano? Sair dessa maneira dá frustração, raiva, tristeza, mas são aprendizagens do futebol. Foram dias difíceis depois da eliminação, mas o futebol continua. Tem de aprender. Pelo menos não será a última que vou jogar, se Deus quiser. Espero jogar no ano que vem e outras mais, se tiver saúde. Da minha parte, trabalharei para não acontecer o que aconteceu neste ano.

Naquela noite de 9 de agosto, antes de converter sua cobrança na disputa por pênaltis, ele seguiu Cuca e foi de jogador em jogador para incentivá-los, como mostram as imagens na mídia.

As imagens mostram você conversando muito com os outros jogadores. Qual sua participação hoje em dia dentro do grupo?

Guerra: – Eu estava dando ânimo a eles, porque eu joguei 15, 20 minutos. Eles estavam jogando a partida toda, cansados, alguns com cãibras. Cobrar pênalti com cãibra é muito difícil. Estava dando ânimo e confiança a eles, porque eu me sentia confiante. E veja que, quando eu cobrei, a grama levantou. Se eu não tivesse confiante, poderia ter perdido. Mesmo com confiança, creio que foi um pênalti mal cobrado. Eu sentia confiança em poder animar os garotos, porque era uma decisão. Não havia amanhã. Nós trabalhamos pênaltis no dia anterior, mas tristemente não aconteceu para nós. Trabalharemos, ou eu trabalharei, para que isso não aconteça novamente, porque poderíamos ter liquidado a partida. Se tivesse um gol mais, não teria pênaltis.

Mas seria diferente um garoto tentando animar os jogadores. Você é vencedor de Libertadores, eleito o melhor jogador do torneio no ano anterior. Você sentiu ali sua importância para o elenco?

Sim, porque sempre digo que o que eu fiz no passado já é passado. Mas eu sou o jogador da última Libertadores, então tenho que demonstrar por que fui eleito o melhor. Isso tem de ser demonstrado nos jogos, nos treinos, não aqui falando. Sim, tenho consciência disso, por isso também a frustração de ser eliminado, por não ter também essa oportunidade de ser melhor outra vez. Sou consciente disso, mas vamos trabalhar mais para que possa acontecer de novo.

Relação com a torcida e lição de Itaquera

A temporada não foi a mais vitoriosa da carreira, mas, individualmente, Guerra até poderia ficar satisfeito. Muito elogiado por Cuca, em especial no início do Brasileiro, quando emendou grandes partidas, o meia também se tornou um dos nomes de maior aprovação na arquibancada. Algo que conseguiu alcançar mesmo depois de ficar marcado negativamente por um clássico contra o Corinthians.

Em seu primeiro Derby, disputado ainda em fevereiro, em Itaquera, o Palmeiras tinha um homem a mais em todo o segundo tempo. Jogo controlado, 0 a 0. Até que, aos 42 minutos, ele tentou proteger uma bola no campo de defesa, foi desarmado e viu o rival fazer o gol da vitória. Choveram críticas, inclusive da própria família.

– O que passou, passou, as críticas, tudo. São coisas do futebol. Eu superei esse erro, as críticas da minha esposa, do meu filho, que são as que me importam, porque eles estão comigo em casa. Eu aceito críticas, o que eu nunca vou aceitar é que me digam palavrões. Mas são coisas do futebol, tem de seguir adiante – comentou o palmeirense, que retornará a Itaquera em novembro.

– Penso agora no jogo de sábado [contra o Atlético-MG, em Belo Horizonte]. Falta muito tempo para jogar contra o Corinthians. Espero chegar lá na melhor forma física possível, porque lembro que jogamos aqui contra o Corinthians, e eu estava fora cinco dias pelo problema com meu filho. Não tive uma preparação boa. Prefiro ir jogo a jogo, treino a treino, e chegar bem lá.

Hoje, pelos bons jogos, você está em alta com a torcida.

– Eu digo que o futebol é de um grupo, um time. Prefiro que falem mais do time do que de uma pessoa. De nada serve falarem bem de você e a equipe perder. Eu sou consciente de que a torcida está gostando do trabalho que Alejandro Guerra está fazendo em campo, mas prefiro que falem do time. O futebol é de 11, 18, 30 jogadores. Eu valorizo muito as boas palavras, mas prefiro que falem do time.

Qual seu objetivo principal no Palmeiras? É a Libertadores?

– Sim. O objetivo é conseguir a maior quantidade de troféus aqui. Eu me lembro da recepção que nos deram no aeroporto quando ganhamos do Peñarol. Eu só penso em ser campeão, não posso imaginar a festa que seria no Palmeiras. Penso nisso. Pude ver fotos e vídeos do ano passado, quando o clube foi campeão brasileiro, mas a torcida sonha com a Libertadores. Eu imagino esse dia. Vai ter gente subindo nos prédios (risos). Eu quero ver isso, esse é meu objetivo, ver as pessoas felizes com o Palmeiras campeão internacional. Só isso.

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