97 anos de conquistas, 7 anos em caixas: onde estão os troféus do Palmeiras?

Entenda a disputa entre Verdão e WTorre sobre o novo museu que nunca saiu do papel.

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Nesta terça-feira, 19 de dezembro de 2017, completam-se 97 anos da primeira grande conquista do Palmeiras: o Campeonato Paulista de 1920, ainda com o nome Palestra Italia. Mas onde está aquele troféu? Onde estão todos vários outros da história gloriosa do Verdão? A resposta é triste: num depósito, em caixas de papelão.

Desde agosto de 2010, toda essa parte palpável da história do Palmeiras está longe de seus torcedores. Por conta da reforma do antigo estádio Palestra Itália, que deu lugar a uma nova e moderna arena, o salão que guardava os troféus foi demolido. Tudo foi levado para um depósito fora do clube.

Recentemente, a principal patrocinadora do Palmeiras promoveu uma exposição com alguns dos troféus – Libertadores de 1999, Copa do Brasil de 2015 e o Brasileiro de 2016. Entretanto, taças importantes e simbólicas, como a do primeiro título conquistado por “São Marcos” no Verdão, seguem encaixotadas, distantes do torcedor.

Parte deles estão na sede social, perto da sala do presidente. Mas e os outros, onde estão? O GloboEsporte.com explica abaixo.

Desmontagem da sala de troféus
Com a aproximação do início da demolição do Palestra Itália, o então diretor administrativo, Wladimir Pescarmona, convocou um grupo, formado por pessoas de diversas áreas do clube, para discutir a desmontagem e armazenamento dos itens presentes na sala de troféus da sede social. Foram feitas consultas a algumas empresas especializadas, porém chegou-se à conclusão que seria melhor e mais seguro que o próprio grupo elaborasse e executasse todo o processo.

Entre as pessoas selecionadas, existia um especialista em logística, que coordenou todo o trabalho de embalagem e de futura estocagem no depósito. O aspecto de registro histórico dos objetos foi coordenado pelo conselheiro José Ezequiel Filho. Tudo foi catalogado, os troféus identificados e um código de barras atribuído a cada um deles. O processo foi executado através de um programa de computador disponibilizado pelo próprio clube.

Transferência para depósito
Depois de tudo encaixotado, lacrado e embalado, as caixas foram levadas a um depósito, no bairro de Pinheiros, zona oeste da cidade de São Paulo – em outra gestão, houve nova mudança, mas o local é mantido sob sigilo. Todas as caixas estão devidamente registradas por código de barras. Lá foram distribuídas por ruas de paletes, identificadas com o uso de dois computadores cedidos pelo clube.

Ao todo, foram catalogados aproximadamente 6 mil troféus, desde taças vencidas pelo time profissional a títulos conquistados pelos esportes amadores . Há exceções que não foram para o depósito, e sim para a Academia de Futebol: uma bandeira do Palestra Itália e os três troféus do Ramón de Carranza (1969, 74 e 75) – a assessoria do clube não confirma que esses itens estão lá. No CT do Verdão estão guardadas algumas taças de outros esportes.

O cachorro de R$ 3 mil
Em janeiro de 2011, estabeleceu-se uma polêmica: o Palmeiras estaria gastando R$ 3 mil mensais com um cachorro que faria a segurança do depósito. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o cão teria sido um pedido do vigia que faz a patrulha do local durante a noite. Por se sentir inseguro sozinho no local, ele teria solicitado um cachorro para acompanhá-lo.

O assunto esteve em reunião do Conselho de Orientação Fiscal (COF), realizada no dia 17 de janeiro 2011, principalmente pelo mal-estar que causou entre funcionários. À época, em entrevista ao GloboEsporte.com, o presidente do Palmeiras, Arnaldo Tirone, confirmou que havia um cachorro designado para ajudar na segurança dos troféus, mas negou que o clube estivesse gastando os R$ 3 mil citados pelo jornal.

– Tem um imóvel, mas não existe aluguel de cachorro. Se quiserem pagar R$3 mil eu mesmo vou (risos). É um local alugado para guardar as coisas, como um depósito. O segurança fica acompanhado de um rottweiler. O que eles falaram na reunião é que o imóvel tinha sido alugado e que tinha despesa de ração com o cachorro, por isso gerou uma certa polêmica. Mas isso (valor) é loucura. Acho que a ração é algo em torno de R$200 – disse o presidente Tirone, na época.

Assunto em pauta
Desde a polêmica do cachorro, pouco se falou sobre o assunto. A arena foi inaugurada no final de 2014, mas os troféus seguiram guardados no depósito. Porém, no dia 31 de outubro deste ano, o Conselho Deliberativo do Palmeiras votou por mudanças no estatuto do clube. Cerca de 200 conselheiros participaram.

Entre os tópicos, foi negada a obrigatoriedade da construção de uma sala de troféus na sede social. Segundo apurou a reportagem, o motivo para a decisão é de que, de acordo com o clube, existe um compromisso da WTorre em construir o memorial na arena.

O outro lado, que votou a favor, também tem seus motivos. Roberto Fleury, conselheiro do Palmeiras, explicou o motivo de ter sido favorável quanto a construção de uma nova sala de troféus.

“Um clube da grandeza do Palmeiras merece um museu e uma sala digna para exibir suas conquistas. O inédito, intrincado e complexo contrato com a WTorre prevê a construção da sala. Por diversas razões, tal ainda não se concretizou. Mesmo com tal previsão, como integrante da Comissão da reforma do estatuto, votei, nela e no plenário, pela construção da sala, por conta do clube, inserindo a obrigatoriedade no estatuto. A meu ver, não se fere a autonomia da direção do clube em ter a previsão desta norma, porque se trata de uma questão institucional. Um projeto arquitetônico e planejamento financeiro tornam plenamente viável a proposta.”

Contrato e arbitragem

No artigo 3.2 do contrato entre Palmeiras e WTorre, está escrito: “O Projeto também prevê área da Arena destinada a serviços e amenidades como academias, lojas, praças de alimentação, estacionamentos, entre outras”.

O documento diz que a parceira tinha a obrigação de construir as áreas em que esses estabelecimentos se encontrariam. A construtora que administra o estádio afirma ter cumprido cumpriu com o combinado, com dois espaços reservados para o memorial, e diz que analisa diversas propostas de empresas interessadas em construir o museu.

Além disso, a WTorre afirma que o assunto não está sendo discutido na arbitragem. O Palmeiras diz o contrário. O clube entende que a construtora tem obrigação, pela primeira sentença arbitral, de construir um museu na arena. A relação, que continua sendo discutida numa segunda arbitragem, é marcada por divergências entre as partes. Não há previsão de um acordo para essa sala de troféus.

O que dizem as partes
Procurada pela reportagem, a WTorre afirmou que possui propostas de empresas que querem gerir o museu, mas ainda as estuda. Dentro da arena, existem dois lugares reservados para a construção do memorial. Como a empresa não é especialista em gerir museus, busca uma que seja. Mas, segundo eles, o negócio precisa ser sustentável economicamente.

Veja abaixo a nota da empresa:
“O Allianz Parque esclarece que, como era previsto em seu projeto inicial, existe dentro do complexo da arena, não uma, mas duas áreas capazes de receber um memorial do clube. Essa atração ainda não foi viabilizada por uma série de razões. Portanto, não se trata de promessa não cumprida, mas de um importante item dentro do plano de negócios da arena, ainda em desenvolvimento.

No momento, a equipe da arena analisa dois projetos distintos, apresentados por empresas especializadas nesse segmento, e que serão discutidos em conjunto com o nosso parceiro, o Palmeiras.

A responsabilidade da nossa gestão é criar um memorial não apenas bonito e atraente, mas sustentável economicamente. Alguns exemplos recentes no país reuniram acervos magníficos, mas hoje lutam para se sustentar e manter os respectivos memoriais em atividade. Precisamos evitar isso e acreditamos que somente estudando iniciativas bem sucedidas, dentro e fora do país, com gestão feita por especialistas, vamos encontrar o modelo ideal para o Palmeiras, sua torcida e o Allianz Parque.

A equipe de gestão da arena, compreende a ansiedade da torcida em termos mais este espaço concluído no complexo do Allianz Parque, mas reiteramos que nosso maior compromisso com os palmeirenses é erguer um memorial à altura do Campeão do Século XX e Maior Campeão do Brasil. Não aceitamos nada menos do que isso.”

Procurado pela reportagem, o Palmeiras preferiu não se pronunciar publicamente sobre o caso. Pessoas a par do assunto, ouvidas pelo GloboEsporte.com, entendem que a responsabilidade de construção do museu é da WTorre.

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