O Palestra nasceu da saudade

O Palestra nasceu da saudade

Mal se iniciara o ano de 1914 e os meios futebolísticos da então pequenina São Paulo de Piratininga – ainda incipiente, ainda sem estádios, ainda vivendo mais dos clubes aristocratas que se apresentavam no Velódromo da Rua da Consolação – foram sacudidos com duas visitas da maior importância, ambas oriundas do mesmo continente e do mesmo país: da Europa e mais precisamente da Itália, desembarcaram por aqui as squadras do Torino e da Pro-Verceli.

A emoção provocada pelas exibições dos craques italianos calou fundo principalmente nos membros da colônia peninsular, a maior da cidade e do Estado, provocando um movimento em seu seio. Afinal, os ingreses tinham seus clubes futebolísticos, os alemães também, enquanto os italianos se dedicavam mais especialmente ao remo – no Espéria, na Ponte Grande – e seus craques pulverizavam em times brasileiros ou de outras colônias.
Foi imaginando que um clube de futebol que reunisse italianos e seus descendentes fazia falta à cidade, que o quarteto formado por Luigi Cervo, Vicenzo Ragogneti, Ezequial Simone e Luigi Emanuele Marzo começou a imaginar a melhor maneira de criar tal agremiação.  Queriam se ombrear ao Germânia, ao São Paulo Atletic, ao próprio Paulistano, tido como melhor representante do futebol brasileiro em São Paulo.

Com a finalidade de criar um clube que cobrisse a lacuna, mas que estivesse aberto também aos brasileiros, o quarteto começou a promover reuniões em uma sala da Societá Doppo Lavoro onde os ideais se misturavam ou se dividiam nas mais diversas direções. Uns queriam fundar um clube filidrammatico, outros uma agremiação dançante, mas a maioria se interessava mesmo na prática do esporte.

As apresentações do Torino e da Pro-Verceli acabaram por fazer a balança pender definitivamente para o lado esportivo, e Ragogneti – que era jornalista – fez publicar um pequeno anúncio no Fanfulla, a folha de imprensa favorita dos italianos, no dia 14 de agosto de 1914, intitulado: “Pela formação de um quadro italiano de futebol em São Paulo”, convidando os interessados a se unir em torno do empreendimento. A idéia inicial foi a criação de um departamento de futebol na Societá Dei Cannotieri (o nome original do Espéria), com o que não concordaram dirigentes daquele clube náutico, obrigando os pioneiros a se firmar no ideal da fundação de um clube novo.

Cinco dias depois, era publicado no Fanfulla um convite a todosos que quisessem aderir à fundação da agremiação da colônia italiana, para que comparecessem àquela noite às 20 horas na Sala Alhambra, na praça Marechal Deodoro, nº 2 (um local de reunião que era usado por qualquer grupo ou entidade interessado), a fim de participar do nascimento do Clube Palestra Itália, bem como eleger uma diretoria provisória para reger seus primeiros momentos. Ficou claro que a destinação principal de tal clube era a prática do futebol.

Não foi nessa noite, porém, que nasceu o Palestra. Um grupo de amantes do teatro não concordou com um clube essencialmente futebolístico e uma cisão política apareceu, sendo eleito presidente provisório Ezequiel Simone, em jogada eleitoral de Luigi Cervo que se retirou em favor do amigo, que se compôs filodrammatico para que ambas as pretensões fossem atendidas. Assim com finalidades teatrais e esportivas foi finalmente fundada oficialmente a 26 de agosto de 1914, na presença de 46 pessoas, às quais coube o título de sócios-fundadores, o Palestra Itália, hoje Sociedade Esportiva Palmeiras. Tendo como cores a branca, a vermelha e a verde, o tricolor da bandeira italiana.

Começou com um baile
Toda briga entre os filodrammaticos e os futebolistas foi vencida pelos…bailarinos. O ano de 1914 terminou sem que nenhuma atividade marcasse a existência do novo clube. De agosto de 1914 a janeiro de 1915, o Palestra tratou de preparar sua grande apresentação à cidade e à colônia, e esta aconteceu na noite de 09 de janeiro de 1915, um sábado, nos salões do Germânia (alugado por 300 mil réis) com um grande…baile.

A presença do real consul da Itália, comendador Pietro Baroli dava foros internacionais à festa. e após a execução da Marcha Real e do Hino Nacional Brasileiro, com discursos e brindes, “teve início a festa, dançante, com abundante serviço de campanha,” como registrou crônica da época.

O futebol, propriamente dito, estrearia em Votorantim, nas imediações de Sorocaba, na tarde de 24 de janeiro de 1915, contra o S.C Savoia, tido então como bicho papão do futebol do interior do Estado de São Paulo. As dificuldades eram grandes, quer para a compra das passagens para a delegação palestrina, como até para camisas e calções. Mas tudo foi superado e a alegria de estrear com vitória compensou todos os sacrifícios.

Depois de um primeiro tempo sem gols, o Palestra volta disposto a ganhar o jogo e o faz principalmente através das jogadas de Bianco, sua maior estrela. É exatamente ele quem manda para as redes a bola que ficaria marcada na história do clube como a do primeiro gol de sua história, cobrando um pênalti na metade do segundo tempo. Antes do encerramento do jogo nova penalidade máxima – desta vez cobrada por Alegretti – determina o placar final de 2 a 0 na estreia vitoriosa da vida do Palestra.

Ele jogou assim: Stilitano, Bonato e Fúlvio; Pollice, Bianco e Vale; Cavinato, Fischi, Alegretti, Amílcar e Ferré. O juiz foi conhecido sportsman da época, Sílvio Lagreca.

Até o ano de 1916, o Palestra só jogou amistosamente. Naquele ano (principalmente com o apoio da A.A das Palmeiras), consegue inscrever-se na Associação Paulista de Esportes Atléticos – a Apea – que dirigia o futebol dos chamados clubes grandes, e estréia no dia 13 de maio contra a A.A Mackenzie College em seu primeiro jogo do campeonato, empatando por um gol.

No ano seguinte, enfrenta pela primeira vez aquele que viria a ser seu mais tradicional adversário no campo futebolístico, o S.C Corinthians Paulista, pois apesar de toda a tradição que os corintianos já acumulavam na época, o Palestra vence no primeiro turno por 3 a 0 e no segundo por 3 a 1, chegando às finais do campeonato com o Paulistano em partida tumultuada, que acabou por determinar aquele que é o Ano Negro da história palmeirense, 1918.

Uma verdadeira batalha campal marcou a partida final e uma frase ofensiva aos brios da colônia italiana proferida pelo dirigente Martinho Prado fez com que o Palestra se retirasse da Apea. A crise coincidiu com o surto da terrível gripe espanhola, e a simpática atitude do clube, transformando sua sede na Rua Libero Badaró em hospital de emergência cedido para a Cruz Vermelha, fez com que a Associação dos Cronistas Esportivos insistisse junto aos palestrinos para que voltassem a disputar o certame oficial. Depois de alguma relutância, o clube que ainda usava a camisa tricolor italiana retorna à Apea, para no ano seguinte – 1920 – conquistar seu primeiro título em jogo decisivo exatamente contra o temível esquadrão de Friendenreich, o Paulistano, vencendo por 2 a 1. O jogo foi no dia 19 de dezembro na Chácara da Floresta e estava empatado em um gol (Martinelli marcara para o Palestra) na metade do segundo tempo quando Mateus Forte fez o gol da vitória e do primeiro título.